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Archive for the ‘editora convidada’ Category

*Por Marina Motomura

Trabalho em uma redação majoritariamente masculina — em português claro, uma “borracharia”. Conversa vai, conversa vem, há alguns meses alguém soltou um comentário: “mulher não gosta de infográfico”. Foi a deixa para a discussão: isso é verdade mesmo? Se sim, por quê? Se não, cadê os infográficos em revistas ditas femininas?Neste mês, resolvi me auto-convidar para fazer um post aqui porque aconteceu um fato raro: uma revista feminina publicou infográficos! Parem as máquinas! Estava eu folheando a revista Nova de abril quando me deparei com a reportagem “Arquivo Y”. São duas duplas mostrando como se comporta o cérebro masculino em quatro situações, cada uma delas infografada (veja abaixo). Daí, voltamos à pergunta inicial: mulher gosta mesmo de infográfico? As leitoras de Nova vão gostar desses infográficos?

Vejamos os argumentos dos dois lados:

MULHER NÃO GOSTA DE INFOGRÁFICO
– A informação é muito picotada, e a leitora mulher supostamente não tem paciência, quer logo chegar aos finalmentes;

– Mulher não gosta de info pelo mesmo motivo pelo qual não gosta de gibis, filmes de ação e videogames: nos infos, as imagens estão “em ação”, para usar um bordão de Luiz Iria. E as mulheres teriam uma tendência a preferir cenas grandiosas, mas com um nível de detalhe menor.

MULHER GOSTA DE INFOGRÁFICO, SIM, SENHOR
– Não é pelo fato de poucas revistas ditas femininas não publicarem infos que se pode afirmar que mulher não gosta desse tipo de formato. É a velha pergunta Tostines: mulher supostamente não gosta de infos, por isso as revistas não publicam, ou as revistas não publicam, por isso as mulheres estranham quando vêem essa solução visual?

– As histórias narradas pelas maiorias das revistas femininas não ficam melhor contadas com o uso de infográficos. Por isso, eles são pouco usados, e não por uma suposta rejeição prévia das leitoras a esse formato.

nova-5

Eu sou do segundo grupo.Voltando ao exemplo da Nova, na reportagem sobre como funciona o cérebro masculino, pensei e repensei se os infos ajudaram a contar melhor a história. Aplaudo a iniciativa da revista de quebrar esse tabu, mas não sei se fazer um raio-x do encéfalo ajudou a leitora a entender que uma parte de trás do órgão é responsável por um sistema de recompensa que libera dopamina… Hããã??

E se tem uma coisa que se aprende ao trabalhar na Mundo Estranho é que o leitor não quer que joguem um monte de jargões e termos científicos sobre ele. Tecnicamente, o infográfico está corretíssimo, lindo e bem editado. Mas teria sido ele mesmo a melhor solução para aquela narrativa? Acho que não. Metáforas ou até mesmo charges poderiam ter tirado o tecnicismo da pauta e tornado a leitura mais divertida.

nova-2Ao mesmo tempo, vejo com bons olhos a chegada desse formato às colegas das Femininas. Quem sabe isso não é só o começo? A partir disso, o que eu gostaria mesmo de ver, daqui para a frente, é o uso de infos quando eles forem, definitivamente, a solução mais bacana para aquela pauta. Nessa mesma edição da Nova, há uma matéria sobre o colesterol — essa, sim, teria sido melhor contada usando um info com corte transversal das artérias sendo gradualmente entupidas pela gordura. Simples e eficiente. Mas o que li foi uma foto — bonita, sem dúvida (veja abaixo) — que não guarda relação nenhuma com o conteúdo apresentado no texto.

E mais: por que não infografar as posições sexuais, que são o filet mignon da revista? Todos concordam que fotos explícitas são vulgares demais, e as fotos “insinuantes” não ajudam nada a pobre leitora a entender onde vai o braço, a perna, o quadril… Uma ilustração substitui com louvores a foto: não é de mau gosto e ainda pode revelar detalhes que uma foto não conseguiria. E as pautas ao estilo “how-to”: como fazer o penteado da moda? A maquiagem perfeita? O exercício para glúteos ideal? Infográficos nasceram para o “how-to”. Setas, esquemas e legendas bem colocadas ajudam a tornar essas pautas ainda mais didáticas.

Acredito que as leitoras estão ávidas por histórias bem-contadas, sempre. Se o infográfico for o melhor jeito, não há porque não usá-lo. E, ah, sim, as mulheres estão cada vez mais jogando videogames e lendo HQ. Só os filmes de ação que ainda são duros de matar, ops, de assistir…

*Marina é editora da revista Mundo Estranho e gosta tanto de infográficos que já os usou em pautas em que eles não eram necessários. Lição aprendida!

[nota da editora: O negrito é meu!]
[nota da editora 2: Até parece que eu preciso editar a Marina, veio tudo pronto!]
[nota da editora 3: Adorei o texto. Não só o texto, como a discussão. Até onde eu sei, é assim no mundo inteiro, nenhum grande info em uma revista feminina. Enfim, tópico aberto, blog aberto, quem quiser participar, está convidado. E obrigada Marina por contribuir, quando quiser, é só falar!]

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